[Se você ainda não leu a PARTE 01, veja a primeira parte da história nesse post]

Minha meta agora era conseguir guardar dinheiro para a próxima viagem. Eu ainda não sabia pra onde era e muito menos quando isso iria acontecer, mas isso se tornou o meu maior objetivo. Nessa época meus pais tinham uma videolocadora  e meu trabalho era ajudar com os negócios da família. Não que fosse um trabalho chato, muito pelo contrário. Eu achava o máximo ter que assistir todos os filmes que chegavam pra poder indicar para os clientes. O problema é que a locadora ficava dentro de um shopping e sendo assim, ficava aberta todos os dias da semana, 12 horas por dia. E nós estávamos lá o tempo todo. Fins de semana, feriados, datas comemorativas, nossos aniversários… Foram 7 anos da minha vida em que minha família não sabia mais o que era ter férias juntos e nem almoços de domingo.

Eu não aguentava mais essa rotina exaustiva que não estava me levando pra lugar nenhum. Eventualmente eu tive que fazer um estágio por causa da faculdade e fiquei feliz em conseguir uma oportunidade na Cassol, uma das maiores lojas de materiais de construção do Sul do Brasil. Agora minha vida se resumia em faculdade, estágio e trabalhar na locadora nas horas vagas. Apesar de ainda não ver muito da luz do dia, foi graças a esse estágio que eu consegui guardar mais dinheiro para a minha próxima viagem, que aconteceu finalmente em Agosto de 2013.

Eu e o David decidimos fazer um mochilão de 30 dias pelo Peru, Bolívia e Chile. Foi durante o planejamento dessa viagem que eu me deparei, pela primeira vez, com o termo “nomadismo digital”. Em um dos blogs de viagem uma menina contava que ela viajava o mundo enquanto trabalhava online. Uau! Isso era mesmo possível? Uma nova caixinha foi aberta na minha cabeça e eu comecei a sonhar como seria ter uma vida assim.

Chegado o dia da nossa viagem, embarcamos para o Peru. Nosso plano foi começar em Cusco, fazer a trilha Inca até Machu Picchu, depois descer para a Bolívia e atravessar o Salar de Uyuni até o Deserto do Atacama e de lá descer até Santiago. Aconteceram tantas coisas nesses 30 dias que apenas essa viagem por si só merecia um livro inteiro só pra ela. Mas o que eu quero contar hoje é sobre uma pessoa que conhecemos e que mudou completamente a nossa visão de mundo.

Todas as noites em Cusco gostávamos de ir até a Plaza de Armas e sentar em algum lugar pra apenas observar a movimentação. Tinham pessoas de todos os lugares do mundo, mochileiros de todas as idades ali com o objetivo de conhecer mais sobre a história do Império Inca. Lá nós inventamos uma brincadeira de observar os viajantes e tentar adivinhar de onde eles eram. Quando estávamos mais empenhados, ficamos tentando ouvir eles falando pra ver se conseguíamos identificar o idioma.

Nessa praça também haviam muitos cachorros de rua e a gente gostava de ficar olhando eles brincarem entre as flores. Em um desses dias uma cachorrinha muito fofinha, manchadinha de branco e preto, se aproximou de nós e a gente começou a brincar com ela. Para a nossa surpresa, ela não era de rua e seu dono logo chegou pra conversar com a gente. Eu estava usando uma touca com orelhas de urso que eu tinha comprado naquele mesmo dia em uma feirinha de rua e o moço veio puxar assunto, falando que era uma touca muito legal. Logo ele sentou do nosso lado e contou a sua história: seu nome era Daniel, um colombiano que estava viajando pela América Latina dentro de um tuctuc com sua cachorra. Tuctuc pra quem não sabe é um tipo de triciclo com uma pequena cabine semi-fechada na parte de trás. E essa era a casa dele! UAU! Pra se manter na estrada ele tirava fotos da sua cachorra em pontos turísticos, imprimia essas fotos e vendia como se fossem cartões postais pra viajantes que ele encontrava no caminho (como nós hahaha). É claro que a gente comprou algumas fotos porque essa história nos tocou tanto que quisemos contribuir com a aventura dele. O Daniel também nos contou que o objetivo dele era continuar descendo pela América do Sul e chegar no Brasil no ano seguinte para assistir a copa do mundo. Não pensamos duas vezes antes de convidar ele pra ficar na nossa casa se ele passasse por Curitiba. Detalhe: nessa época nós ainda nem tínhamos uma casa, porque cada um morava com os seus pais, mas fizemos o convite mesmo assim.

Depois que ele foi embora continuamos conversando sobre como era incrível isso que ele estava fazendo. Nós nem sabíamos que era possível viajar dessa forma, quase sem dinheiro, apenas conhecendo pessoas pelo caminho e seguindo o fluxo, confiando que o universo traria as pessoas e oportunidades certas na hora certa, vivendo um dia de cada vez. Isso acendeu uma chama dentro de nós. Se nós já estávamos com vontade de conhecer o mundo, essa história aumentou ainda mais esse desejo e nos fez acreditar que essa história de viajar por aí podia ser mais fácil do que a gente imaginava.

Com o fim da viagem voltamos pra Curitiba e começamos a pensar seriamente como poderíamos começar a viver os nossos sonhos. Um dia, durante um picnic, começamos a conversar sobre morar fora. Precisávamos de uma grande mudança de vida e essa parecia ser a solução. A primeira opção foi obviamente Portugal, pois como eu tenho cidadania portuguesa seria mais fácil começar por lá, além da facilidade com o idioma. Jogamos essa ideia no ar e deixamos.

1 mês depois começamos uma nova aventura. O David fazia parte do Pakua, uma escola de artes marciais que fazia eventos todo ano em cidades diferentes. No ano anterior tinha sido em Floripa e dessa vez seria em Rosário, na Argentina. Que oportunidade perfeita para fazer a nossa primeira roadtrip! Transformamos o nosso carro em um super super super mini motorhome e pegamos a estrada. A experiência foi demais e a gente achou essa ideia de viajar por terra sensacional.

Durante essa viagem, em uma quente noite de Dezembro, sentamos em um barzinho pra tomar uma cerveja. Papo vai, papo vem, a história de morar em Portugal entrou no assunto de novo. Foi durante essa conversa que a ideia começou a se tornar mais real. Nesse dia, nessa mesa de bar, tomamos uma decisão: iríamos morar juntos para poder juntar dinheiro durante 1 ano e ir morar em Portugal no ano seguinte. Eu não sei em que realidade “morar junto” era sinônimo de guardar dinheiro na nossa cabeça, já que teria sido muito mais fácil continuar morando com nossos pais pra não ter contas pra pagar. Talvez tenha sido as muitas cervejas que tomamos, mas naquele momento nós vimos em nossas mãos o plano perfeito para o nosso futuro. E hoje ficamos felizes em ter seguindo com esse plano.

Quando voltamos de viagem já era perto do Natal e eu ganhei de presente da San, irmã do David, um livro que mudaria a minha vida dali pra frente. Esse livro se chama “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”, de Deepak Chopra. Muitas das transformações que aconteceram na minha vida a partir dali eu devo às coisas que aprendi nesse livro. 2014 tinha muitas transformações de vida aguardando por nós. Mas essas histórias vão ficar para o próximo post…

Memórias de um Sonho na Estrada –
Parte 02

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